Antropológica do Espelho
Contextualização da obra
Antropológica do Espelho - Uma teoria da comunicação linear e em rede - parte da metáfora do espelho – o novo ordenamento artificial do mundo. O virtual modifica os costumes, a vida mudou. Surge um novo bios: virtual. O autor discute as transformações na pauta de interesses e costumes, nas referências simbólicas e na construção da realidade, da memória e da identidade, com as novas mídias. Além disso, Muniz Sodré sonda como acontecem as modificações no terreno das normas e valores de sociabilidade e no próprio pensamento humano.
Descrição do conteúdo da obra
Inicia com a bios: No bios virtual, o objeto predomina sobre sujeito. Busca-se um novo sistema de inteligibilidade para a diversidade processual da comunicação: redescrever as relações homem e tecnologia sob influxo do simulativo e viabilizar uma compreensão das mutações dentro de um horizonte de auto questionamento, mais que zoe, vida maior que a vida. Passa pela hexis, educação como axis mundi: A educação de herança fordista e taylorista cedem vez, agora, para o toyotismo, de capitalismo flexível: fluxos horizontais de informação, a recusa da rotina burocrática, a aprendizagem permanente, o trabalho em equipe, etc.. Entra em virtus, potência do novo no pólo positivo, o mesmo diferente no pólo negativo. Com a realidade virtual,o espelho adquire vida, surgem outras formas de consciência e de individualização. O espaço tridimensional é produzido com dados gráficos do computador. Trafega pela communitas – A consciência moral diz ao homem como ele deve agir normativamente; a ética não ensina algo específico, mas o universal. E termina com communicatio, um saber que se coloca em comum para ‘agir a vida’. O bios midiático é autônomo, não se prende às relações sociais imediatas, mas à abstração simulativa. A identidade fixa do sujeito da sociologia clássica sai de cena. O performer não é mais o ator do teatro social, mas a máquina simuladora do mundo.
Para Wittgenstein e Heidegger, o mundo externo resulta de processos intersubjetivos. O reconhecimento de algo como real depende de mecanismos perceptivos que são elaborados culturalmente e são psiquicamente interiorizados, desde o nascimento. Na vida real, dizemos que é real porque podemos tocar, sentir o peso, etc. Se girarmos uma pedra amarrada num cordão, a pedra é dita real, mas o circulo é uma ilusão. Para Jaspers, as ilusões surgem de transformações de percepções reais. Por outro lado, o que é ilusão (alucinação) numa cultura pode ser real em outra. Muniz Sodré foi muito feliz citando Murilo Mendes: 'Só não existe o que não pode ser imaginado'. O espelho não tem interioridade, mas é preciso aceitar a ilusão para aceitar a percepção de si mesmo no espelho. Caso contrário, caímos no que a Psicologia chama de alucinação: perceber algo que não tem objeto atual. No bios virtual, o objeto predomina sobre sujeito. Hoje, busca-se um novo sistema de inteligibilidade para a diversidade processual da comunicação: redescrever relações homem vs. tecnologia sob influxo do simulativo e viabilizar uma compreensão das mutações dentro de um horizonte de auto questionamento.
Pontos Positivos
Para Muniz Sodré, realidade virtual é um metaforizador tecnológico,um novo dispositivo de consciência, algo que é técnico e subjetivo ao mesmo tempo. A consciência opera por analogias, por metáforas. Entender uma coisa significa interpretá-la por uma metáfora familiarizante. A consciência é então uma metáfora do mundo real e não uma cópia. Todas as mudanças na forma de viver contemporânea têm a ver com a comunicação. Muniz Sodré apresenta uma teoria onde define a mídia não como transmissor de informação mas mídia como ambiência, como uma forma de vida. É real, tudo é real, mas não da mesma ordem da realidade das coisas. Não é da mesma realidade cotidiana. É diferente: uma coisa é a simulação na televisão, outra coisa é o fato real - é outro tipo de realidade. A representação midiática é mais abstrata, espectral. O bios midiático é uma nova forma de vida. Ele desenvolve uma visão comunicacional como uma nova esfera de domesticação, de colocar o homem numa outra antropologia. Esse enfoque é altamente positivo.
Crítica à obra
Minha crítica ao livro de Muniz Sodré está em primeiro lugar na extrema compilação de teorias, pensamento e idéias. Creio, porém, que o autor tinha alguma intenção de apresentar uma teoria referenciada. Provavelmente, para apresentar como curriculum de comunicação para as instituições de ensino. Um livro com um viés institucional muito acentuado. Creio, também, que Muniz Sodré não conseguiu sair de uma armadilha (que ele próprio criou) para explicar a sociedade em rede com parâmetros e idéias oriundas da comunicação linear. Ele apenas tangência o novo mundo informacional, não conseguindo explicar a rede pela seu próprio distanciamento. A rede é imanente. Muniz Sodré se mostra desconhecedor do que está acontecendo nesse mundo 'virtual'. Sodré considera o virtual como uma ‘individualidade sem singularidade’ , um empobrecimento, como o uso de identidades novas. O que acontece na rede é o contrario. Uma desconstrução dos containers do ser, do espaço, do tempo e do conhecimento. Ou, aquilo que Toni Negri chama de multidão.
Relevância ou não da obra no contexto contemporâneo
A mídia é uma nova administração do mundo. Portanto ela é parte e algo que se desenha desde a modernidade do Ocidente. A intervenção, a interrupção, um estado soberano e controlador. O estado intervém juridicamente, prendendo, monopolizando a violência. Intervém , também, biologicamente na vida das pessoas. Como? Nos campos de concentração, com experiências na biologia do indivíduo, experimentando o corpo do outro. Na engenharia genética, intervindo, clonando, alterando a própria evolução da espécie humana. Assim, a mídia também é um mundo sem terra. Uma máquina de guerra. Muniz Sodré entende que a ruptura civilizatória é importante. O espaço informacional que deriva da evolução da internet vem catalisar o agenciamento coletivo da enunciação. E, isso vem romper os paradigmas culturais da humanidade.
Apresentação do Autor
Muniz Sodré é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem 25 livros publicados e foi o vencedor do Prêmio Luiz Beltrão 2001, categoria Maturidade Acadêmica, concedida pela Intercom. Pesquisador vinculado ao GRIFFO - Programa de Estudos sobre Teoria da Comunicação. Integrante da Comissão de Bolsas do Programa de pós-graduação. Além disso, é professor visitante de várias universidades estrangeiras( Paris, Washington, Montreal, Berlim, entre outras).
Livros importantes : Comunicação do grotesco - Introdução à cultura de massa no Brasil. Vozes, 1971. 13ª edição, 1990. Muniz Sodré e Raquel Paiva
O monopólio da fala - função e linguagem da televisão no Brasil. Vozes, 1977. 4ª ed. 1982.; A verdade seduzida - por um conceito de cultura no Brasil. Codecri, 1983.
A máquina de Narciso - televisão, indivíduo e poder no Brasil. Achiamé, 1984. 3ª ed Cortez.; O bicho que chegou à feira (romance). Francisco Alves, 1991.; O social irradiado - violência urbana, neogrotesco e mídia. Cortez, 1992.; Clínica e sociedade (organizador). Forense, 1992. Reinventando a cultura - a comunicação e seus produtos. Vozes, 1997.; Claros e escuros - identidade, povo e mídia no Brasil. Vozes, 1999.; Antropológica do Espelho, pela Vozes.


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